Eu já havia procurado por toda parte. Por todas as ruas, praças, bairros da minha cidade. Bares, boates, cafés, livrarias. O centro, velho centro tão depredado, situação precária do abandono. Não sei por que, mas aquele centro tinha alguma coisa de mim ali. Por isso parei naquele hotel.
O atendente do hotel, que atendia também no bar da espelunca, não tinha o braço esquerdo. Olhei para a cena tragicômica dele abrindo uma cerveja para mim. Até riria, sou chegado a essas crueldades. Mas o desespero da minha alma era tão grande, que um sorriso era a última opção de reação para o momento.
Eu já havia procurado em toda parte e não a encontrava. Ela, a mulher. Não é preciso descrever mais que isso, entenda, é justamente isso. Ela é a mulher. E eu, que passei uma vida inteira numa busca de algo que não compreendo, quando finalmente encontro...
Um rádio tocava uma música sertaneja horrível. Música de amor desfeito. Eu já havia tomado umas antes, e aquela primeira cerveja quase me embriagou. E a cabeça enevoada, misturada com a inconstância da situação encheu meus olhos de lágrimas. Só que eu não iria chorar. Já tinha feito um pacto há muito tempo, prometendo não chorar. Eu não ia chorar mais. O desespero ia bater, a dor ia lacerar a alma, mas eu não iria chorar. Repetia como mantra.
O mais triste na vida são as desilusões. Te jogam do cavalo. Eu já estava louco: não havia mais refeição, sono, atividade. Tudo era ela. Na verdade, não me achava preparado para aquilo. Um mal meu, achar que nunca estou preparado. Dava longas talagadas no copo. Aquilo também não ajudava. A verdade é que eu a tinha perdido. Tanto tempo para achar, e a perdi. Nem sei bem se a havia perdido, ou se eu havia me perdido. Só sei que ocorrera a perda.
Em muitos momentos da vida, você acredita que ela possa dar certo. Mas na maioria, não. Vida miserável. Muito pior que a vontade de chorar era o vácuo no coração. Eu torcia meu corpo, meus braços abraçando minhas pernas, como se pudesse acabar com esse buraco. Não podia. As lágrimas molharam o joelho. O maneta abriu outra cerveja. Aquela noite iria durar.Bem, um continho que pode ter ou não um pouco de verídico... estórias que se ouve na vida....
Conversa de Elevador
O cara entrou no elevador de seu prédio, rumo ao apartamento. Lá, sua querida e amada esposa teria preparado o almoço para a filhinha, e teria uma bela surpresa ao descobrir que ele dera uma fugidinha do trabalho para almoçar com sua amada família. Junto dele, entrou outro homem. Um pouco mais jovem, um pouco mais atlético, um pouco mais bonito. Apertou o mesmo andar que ele.
- Você não mora aqui, não é?
- Isso mesmo... o Sr. mora?
- Quê isso, não me chame de senhor, nem sou tão mais velho que você. Percebi que vai para o mesmo andar que eu.
- Andar.... como assim...
- É, você apertou o terceiro, não foi.
- Isso, sim, você mora lá?
- Sim, no 302... uma visita à vizinha?
- Eh... sim. A Dona... a dona...
- Arminda, não é?
- Isso. Bem, mal a conheço, sou só um... corretor de planos de saúde.
- Que interessante. Acho que vou precisar também. Você pode me dar o seu cartão?
- Bem... é que esqueci no carro lá embaixo. Depois de passar na dona... na vizinha, eu vou no seu apartamento.
- Ok... pronto, o elevador chegou.
- Olha, espera, vou ter que voltar lá para baixo. Acabei de perceber que esqueci minha maleta também no carro. Mas fica tranqüilo, depois passo na sua casa...
- Ok... mas como é mesmo seu nome?
A porta do elevador já fechando, com o vendedor dentro berrando pela fresta:
- Eduardo.
O elevador desceu. O homem riu do vendedor, que sujeito mais avoado. Agora ia rever sua querida família, sua esposa amada, sua filha, que sempre lhe recebia contando as estórias de Dudu, um personagem de um desenho que ela assistia. Nunca tinha visto esse desenho. A esposa dizia que era um desenho desses japoneses, mas as estórias da filha pareciam tão reais... Esse Dudu com certeza.
- Peraí... Dudu... Eduardo?
O elevador já tinha descido. Olhou rapidamente pelo basculante. Um carro se afastava do prédio. Já era. Agora quem iria ver era sua esposa...
(Alexandre Lemos)
E veio à luz
Brilhando pequenina como brilham as estrelas quando são azuis
Ou quando por estarem muito longe lá no céu parecem camafeus
Ou mesmo olhos claros como raros devem ser os olhos lá de Deus
E veio assim
Atropelando as horas, disparando o coração de quem espera, enfim
Que a natureza saiba o que fazer nesses momentos em que a vida vem
E vida vindo aflita ainda forte e tão bonita pode ser também
O meu amor viaja
Decide o próprio rumo, fura túneis na montanha
E mesmo que não haja saída aparente
O meu amor é renitente e bota o pé na estrada
Meu amor não quer mais nada a não ser saber que a vida veio
Me deixando o rosto cheio de felicidade, susto e cor
Nasceu meu novo amor
E é bom demais
Lelena abrindo a caixa de Pandora e recebendo Isadora em paz
Fazendo a madrugada, de repente, rebrilhar em um milhão de sóis
Pra derreter o medo congelado que havia em cada um de nós
E ainda bem
Que a natureza sabe o que fazer nesses momentos em que a vida vem
Tão frágil como porcelana fina, cara de menina e aprendiz
Deixando a gente louco de vontade de gritar que a gente tá feliz
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